joão ([info]luscofusco) wrote,

exercício de futurologia

Chamem-me ave agoirenta mas as minhas expectativas quanto à campanha portuguesa no mundial são reduzidas.
Premissa: Cristiano Ronaldo desenvolve uma tendência para o drible mimado e saturado a priori. Finta do puto do ciclo que sabe que é melhor que os outros e não está para se chatear. Sofre um encosto legal e responde com uma crispação e uma agressividade desmesuradas.
Cristiano Ronaldo migrou aquando menor para a capital e no meio de dezenas fez-se um jogador de futebol dos bons. No meio disto talvez tenha faltado uma melhor formação cívica e pessoal. Uma exibição extraordinária contra o Manchester United garantiu-lhe a concentração pelos próprios reds. Ronaldo conseguiu entrar nas contas de um obstinado Scolari que tende a ignorar a realidade evidente sob o pretexto de construir uma equipa cujo maior mérito seja a coesão. Ronaldo conquistou definitivamente o lugar de destaque e de herdeiro do ceptro de Figo no Euro 2004, tendo produzido um fascínio generalizado nos portugueses. Miúdo pobre cresce e reestrutura o drible que Denilson foi buscar às douradas décadas brasileiras de Garrincha.
Com as suas pausas Ronaldo gasta segundos (preciosos no futebol de hoje) mas consegue, regra geral, livrar-se dos adversários e progredir a uma velocidade vertiginosa. Se na génese desse estilo espalhafatoso e muitas vezes hiperbolizado de finta já encontrávamos uma certa tendência para o narcisismo, a verdade é que não nos podíamos queixar demasiado, visto que ele servia os propósitos colectivos. Ronaldo podia estar mais interessado em humilhar o adversário, sentando-o, do que na conquista desportiva por si só, mas no Euro, bem como em parte dos jogos de qualificação para o Mundial, os interesses do jogador e da selecção convergiam.
Para gáudio de uma multidão de adolescentes femininas em histeria, Ronaldo exibia uma compleição física impressionante, em contraste com a imaturidade evidenciada pela acne facial. Em pleno e aparatoso noivado com uma celebridade nacional, Cristiano apresenta-se nos jogos de preparação insurrecto e ressabiado. Tal por si só já seria suficientemente grave, mas o futebol do 17 é pouco produtivo.
A hipótese que proponho é muito simples. Não é difícil imaginar a garra com que os Angolanos vão entrar em campo no jogo de estreia. Ao contrário dos jogadores portugueses, quase todos a meio de confortáveis contratos ou em fim de linha, encontram-se na plataforma que pode arrancar muitos deles dos escalões nacionais inferiores. Além do mais, não vale a pena escamoteá-lo, há um jogo de má memória entalado e a perspectiva de jogar contra Portugal acarreta bónus de motivação por factores históricos. Nesta linha veja-se o que o Senegal, que mesmo sem tantas razões de queixa relativas à França quanto a Tunísia, conseguiu fazer aos franceses há quatro anos. Portanto, os Angolanos entram com tudo, entusiasmam-se, provavelmente até marcam um golo ou mandam umas bolas aos ferros. Portugal retrai-se e apercebe-se finalmente de que está num mundial e que não é por jogarem no Barreirense que os outros estão condenados. Ronaldo, à beira de um ataque de nervos, recebe uma carga de ombro de um angolano, cai, rebola, põe-se de pé com uma cambalhota acrobática e agride o outro. Vermelho para o extremo, provável suspensão da competição ou pelo menos uns três jogos de castigo. Para o seu lugar um Simão que tem a sua derradeira oportunidade de mostrar que é mais que um jogador ligeiramente acima da média.
Contudo, apesar de ter reservado a maior parte do meu texto a Cristiano Ronaldo não é só ele que me preocupa. Além do inevitável Ricardo, que parece ter um sucessor ao seu nível em Bruno Vale (vide campeonato de sub-21), os dois centro-campistas mais recuados também me causam alguma inquietação.
Vejamos: após dois anos gloriosos, o Porto consagra-se como, se não a melhor equipa da Europa, pelo menos aquela que joga um futebol mais eficaz. O famigerado losango de Mourinho encontra sequência na selecção após o desaire no jogo inaugural do campeonato europeu de 2004. Costinha, Maniche e Deco tornaram-se titulares indiscutíveis de Scolari. Se o último se confirmou como um dos melhores jogadores do mundo e joga na equipa mais extraordinária do momento, os outros dois, seduzidos por chorudos rublos, rumam a um clube de (mais) um magnata russo, o Dínamo de Moscovo. O objectivo era, a curto prazo, estabelecer-se como clube do topo russo e, depois, a Europa. Maniche e Costinha perderam as rotinas, jogaram numa liga menos competitiva e distante do futebol moderno, ou nem sequer isso – Costinha amenizou-se com o treinador e deixou de jogar.
Enquanto isso, Tiago efectua uma liga dos Campeões até ao primeiro jogo dos quartos-de-final notável. Tiago é a quarta opção de Scolari para os lugares do meio campo, visto que Deco está assegurado e Petit se constitui como a alternativa a Maniche e Costinha. Tiago jogou atrás de Juninho ou no lugar deste e cumpriu muito bem o seu papel na melhor equipa francesa da actualidade e numa das que melhor joga na Europa. A ver vamos, mas parece-me que Tiago fará uma entrada milagrosa no segundo ou terceiro jogo.
Quanto ao resto, o próprio eixo defensivo parece-me algo desarticulado. Valente e Miguel estão perros, Ricardo Carvalho parece facilitar um pouco mais, não deixando de ser excelente, e Meira é mediano. Pauleta é o ponta de lança clássico mas não dá garantias de concretização de outros tempos. Figo é Figo, mas um Figo desgastado.
Um segundo lugar no grupo já superaria as minhas expectativas.

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  • 4 comments

[info]apontamento

June 4 2006, 22:24:07 UTC 5 years ago

eu tou expectante. o mundial de 2002 'vacinou-me'...

[info]nomorefilms

June 5 2006, 01:53:15 UTC 5 years ago

tás feito um cronista.
de qualquer modo, discordo de ti em alguns aspectos. acho o scolari algo presunçoso e egocêntrico, mas quando todos insistem em desacreditá-lo, eu olho para o que ele já conseguiu e dou-lhe todo o mérito. é óbvia aquela máxima de que qualquer seleccionador brasileiro corre sério risco em ser campeão do mundo, mas eu acho que ele tem valor como técnico, em particular ao nível da motivação. à excepção daquele primeiro jogo no europeu, sempre teve uma leitura de jogo fantástica para saber quem e quando substituir, fez todo o apuramento sem perder um único jogo (aliás, n perdemos há 14 jogos, penso eu), e fazer da selecção um clube é a melhor forma de trabalhar os aspectos de coesão e unidade grupais. num clube, quando um jogador está em baixo, tem que ser trabalhado e é isso que ele faz. é óbvio que o costinha podia não ter vindo, assim como o maniche, é óbvio que o tiago é dos jogadores que está em melhor forma da selecção, mas eu ponho fé neste grupo assim como está. esta selecção tem muitas lacunas e está longe de estar ao nível de algumas outras que vão estar presentes, mas fico sempre expectante em ver o que acontece. em relação ao ronaldo, prefiro pensar que ele facilmente sairá do jogo se for necessário, mas a verdade é que ele sabe mais numa perna do que muitos dos que lá estão com as duas. não vai ser grave.
em ultima análise, e como sofisma, eu sou mais do benfica do que português, por isso, desde que não magoem cá os meninos, está tudo bem:>

Anonymous

June 5 2006, 23:15:19 UTC 5 years ago

O Cristiano Ronaldo era melhor para o bailinho da Madêra

Anonymous

June 25 2006, 22:23:35 UTC 5 years ago

O acne do Cristiano só o torna mais sexy
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