intervalo
Oct. 26th, 2007 | 01:58 am
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animação
Oct. 21st, 2007 | 05:12 pm
A cena lisboeta de animação de rua é fraca. Nas praças de outras cidades europeias é frequente ver quartetos de cordas; em Lisboa não vamos além dos acordeões. Não deixa de ser sintomático de um país onde a música clássica está pouco enraizada. Em Nova York vi meia dúzia de gajos misturar de forma incrível breakdance e basquetebol. Visitantes e residentes aplaudiam. Em Portugal, esse filão de futebolistas, nunca vi nenhum exibir-se com uma sessão de toques virtuosos perante os turistas. O protagonista mais original é aquele desafortunado cego que palma a linha verde do metro produzindo beats vertiginosos com a bengala. O homem tem talento e uma capacidade rítmica que lhe permite recriar de forma imaginativa o enfadonho "tenham a bondade de me auxiliar". Os punks passés da rua Garret que pedem dinheiro em troca de cinco notas de flauta espelham a concepção lisboeta de performance artística urbana: recompensá-la trata-se de exercer um acto de caridade e não de reconhecer a sua originalidade ou mérito. Numa perspectiva weberiana, esta seria uma atitude mais católica que protestante.
Madrid tem imensos performers. Uma banda de ciganos funde jazz e música balcânica; um homem de fisionomia russa serve-se de copos para interpretar Bach e Tchaikovsky; um anão que praticamente não tem braços, as mãos unindo-se aos ombros, transforma latas em miniaturas de motas; um sorridente negro munido de um soundsystem portátil de karaoke canta com sotaque jamaicano. E depois há os imitadores de estátuas, todos muito bem caracterizados: um Chaplin a preto e branco, uma árvore realista, uma bruxa de nariz adunco, um anjo dourado.
Trabalham quase todos os dias, alguns têm sítios fixos e outros são itinerantes, conhecem-se uns aos outros. O imitador de Chaplin termina a sua jornada quando um par de ciganos vai começar o raide às esplanadas. Cumprimentam-se, conversam um pouco e o acordeonista solta uma melodia. Chaplin desforra-se da imobilidade e solta uns desenvoltos passos de dança, fazendo girar a bengala prateada.
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calle de toledo, 19 (2)
Oct. 11th, 2007 | 12:37 am
Descobri que o outro Jorge, o filho mais velho de Manuela, toca violino. Assisti a uma exibição sua na cozinha: Bach e algo de sonoridade espanhola que não identifiquei contendo um pizzicato, na minha opinião de leigo, executado de modo muito razoável. O seu irmão, Leonardo, olhava-o embevecido enquanto imitava os seus movimentos com dois palitos.
Manuela gosta de falar comigo. Talvez despejar seja um verbo mais adequado. Há algumas noites, depois de eu chegar, interceptou-me na cozinha e soltou um daqueles suspiros que me obrigou a perguntar o óbvio, se estava cansada. Desata numa série de considerações sobre como a sua vida é uma corrida constante e de como não tem tempo para o que quer que seja e de como os filhos lhe consomem os dias. Tento aligeirar a conversa, pergunto-lhe se a mãe não a costuma ajudar, enfim, ficar com os miúdos quando ela sai. Responde que não, nada disso, que a mãe lhe mói a cabeça, que prefere que a ela esteja longe e não a esteja sempre a vigiar. E conclui, es un poco cabrona, mi madre, ¿sabes?
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napoleão e o mercado comum
Oct. 6th, 2007 | 05:10 pm
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facultad de cc. políticas y sociología
Oct. 4th, 2007 | 10:51 pm
O interior da Facultad de Ciencias Políticas y Sogiología é uma miscelânea de inscriçoes contestatárias, flyers anarquistas, tarjas de manifestaçoes de protesto: contra a dificuldade em conseguir casa, contra a precaridade laboral, contra a desiguladade de género, contra a presença dos russos na Chechénia . A esmagadora parte dos alunos parece ser de esquerda. À entrada da cafetaria há uma espécie de bar paralelo explorado por pessoal que me parece okupa. Muitos alunos andam de calças de fato de treino de poliéster. Uns quantos punks, alguns rastas. Vêem-se referências institucionais à polémica lei 28/2005, a tal que restringe substancialmente a possibilidade de fumar dentro de espaços fechados, particularmente no interior de edifícios públicos. Nas outras faculdades da Complutense que tive a oportunidade de visitar cumpre-se a lei. Porém, na "minha" ninguém faz caso e quase toda a gente fuma: cigarros, charutos, cigarrilhas, charros. Em espanhol "sala de aula" traduz-se simplesmente por "aula". Nao há uma única em que nao se tenha prefixado, com um marcador ou um corrector, um "J": uma série de jaulas, portanto. A verdade é que a faculdade em si mesma é um sítio fechado, algo claustrofóbico. Nao há qualquer extensao para o ar livre, um pátio, uma esplanada.
Quando nos encontramos, Marion, francesa bonita de sorriso fácil, pronuncia como pode o meu nome (oscila entre Juan, Xuao, Jao) e fala-me entusiasmada da sua aula de Sociologia do Desvio. Numa mistura de espanhol com francês explica-me qual é sítio habitualmente escolhido pelos suicidas madrilenos e diz que a faculdade já foi uma prisao. As lúgubres vigas de betao parecem anuir. Almoço com Marion e outras francesas. Ela pede o último "bocadillo" disponível: calha-se uma sandes de entremeada que ela e as suas compatriotas fitam enjoadas. Tento explicar que entre comer aquilo ou bacon nao há grandes diferenças, mas de nada serve.
Quanto ao académico em sentido estrito, tenho alguns dias para escolher que cadeiras frequentar, pelo que tenho andado em prospecçao.
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calle de toledo, 19
Oct. 1st, 2007 | 09:47 pm
Sinto-me dentro de um argumento do Almodovar.
(sem tiles)
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locutorios
Sep. 30th, 2007 | 07:35 pm
(sem tiles)
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strawberry jam
Sep. 30th, 2007 | 01:31 am
Um homem sozinho num quarto de hotel que não é turista, viajante, imigrante. Sinto um certo apelo por este tipo de personagem, a daquele que se limita a esperar algo: uma mulher difícil, um determinado acontecimento, a oportunidade de um crime. Aparecem amiúde nos livros e nos filmes, às vezes com bons resultados, outras nem por isso. Sempre tive curiosidade em saber em como me sentiria sendo um deles; como seria estar só, sem ter de correr contra o tempo que se esfuma até à hora do avião de regresso. Bem vistas as coisas, até agora nunca tinha estado num quarto de hotel sem ninguém com quem o partilhar - ainda que classificar como hotel este singelo Hostal Perez não seja talvez o mais exacto.
Os meus primeiros dias em Madrid foram intensos, desgastantes. Encontrar uma casa é difícil por estes lados, mais do que imaginava. A procura é muita e a oferta não é tanta quanto isso. Daí que os preços sejam elevados e não haja uma correspondência proporcional entre o que é disponibilizado e o que é pedido em troca. Fiz dezenas de telefonemas, mandei alguns e-mails, vi umas quantas casas. À conta disso iniciei esse processo interminável e sempre gradual que é o de interiorizar as distâncias, assimilar o espaço, entrar na dinâmica de uma cidade. Apesar de ter já estado em Madrid no ano passado e de me recordar da sua geografia, o meu olhar é agora diferente, mais dirigido aos aspectos práticos da vivência quotidiana. Depois de algumas frustrações recebo uma resposta positiva: Manuela, uma trintona que parece ser fixe com dois filhos, Leonardo e Jorge, quatro e treze anos, dá-me o seu aval: me parece muy bien que vengas. Não tinha imaginado uns companheiros de casa assim e o preço é acima do orçamento inicial. No entanto, o tamanho do quarto, a localização da casa, a sombria perspectiva de ir gastando dinheiro indefinidamente em noites no hostal e a boa impressão que Manuela e os pequenos me causam fazem-me avançar. Mudo-me amanhã para a minha nova casa, Calle de Toledo, 19, 4. izq., 28005 Madrid. Para quem conhece a cidade, é a rua que sai da Plaza Mayor para sul, na direcção da Latina. Para os outros, recorrendo a um paralelismo imperfeito com Lisboa, seria mais ou menos como estar na Rua Aúrea (ou do Ouro). Invejável, portanto.
Que faz um solitário durante a noite, quando não tem de procurar casas? No meu caso, cansado de caminhar, janto em condições, bebo umas cervejas (gosto da Mahou) ou uns copos de vinho, vejo futebol e oiço música. Ontem assisti a um concerto de um sexteto de jazz num bar porreiro chamado Populart - entradas gratuitas e bebidas caras. A aborratar por ser sexta e com gente de proveniências distintas: espanhóis residentes, italianos bonitos, um par de nórdicos de expressão sorumbática mesmo nos picos da música, americanos enormes entendidos em jazz, that's from George Benson, he'd be proud. Gosto muito do concerto e do sítio, mas não tenho carteira que aguente assim tantas idas lá. Além disso fica nas Huertas, relativamente longe da minha localização actual, em Argüelles. O sítio que eu adopto como base é café, cervejaria e restaurante ao mesmo tempo: o nome é Dublín, embora não seja irlandês. É de facto bastante espanhol, servindo-se pinchos de empanada galega e tortilha, montados de lomo e umas tapas porreiras (destaque para as anchovas e para a salada russa). Começo a dar-me bem com os empregados: Juan, espanhol carrancudo, Jorge, um rapaz simpático de aspecto índio, possivelmente peruano, e uma mulata (Conchita, acho) que além de muito bonita é bastante reivindicativa e que me parece vinda do Caribe. É no Dublín que vejo os jogos de futebol: Athletic Bilbao - Atlético Madrid, Barça - Zaragoza, Real Madrid - Betis, Barcelona - Levante. Há alguns habitués da bola e ao longo das noites vou conversando com um deles, primeiro sobre o futebol, depois sobre o resto. Comentamos a importância de Sneijder no actual Real Madrid, a segunda época dos galácticos (eixo Makélélé-Zidane), a rotação de bola do Barça, a capacidade de antecipação de Messi, a recente crise de Deco aparentemente contariada nos últimos jogos, o dream team do início dos anos 90, Stoichkov, Romário, o campeonato que o Levante reclama ter ganho no tempo da Guerra Civil. Diz-me que por mais jogadores que apareçam nenhum será como Maradona. Que se meteu num comboio com uns amigos quando tinha vinte anos e que fez mil quilómetros para o ver jogar; nessa altura Maradona era ainda adolescente. Pergunto-lhe se é argentino, então. Confirma, chama-se Mário, mas todos lhe chamam Pajaro. Músico sem banda fixa, costuma tocar em estúdio e fazer digressões com gente conhecida, diz. Saiu da Argentina há vinte e seis anos, andou pela Europa central e do norte, pelo Kuwait antes da guerra. Toca guitarra e gosta principalmente de jazz e de música brasileira. Falo-lhe no concerto no Populart e ele diz-me que costuma tocar por lá. Convida-me para a sua próxima actuação num sítio chamado El Junco e faz-me um mapa no meu caderno. É na segunda-feira e também não se paga.
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depoimentos do mundo imobiliário madrileno
Sep. 27th, 2007 | 08:16 pm
Para que vejam o tipo de meio em que me tenho movido deixo-vos alguns testemunhos encontrados num site de anúncios.
Temos o que se queixa dos anúncios que pedem "sólo chicas":
TIENES RAZON, YO VIVIA CON VARIAS PERSONAS EN UN PISO COMPARTIDO, DE LAS CUALES 2 ERAN TIAS. INCREIBLE : SE DEJABAN LOS GANCHOS DEL PELO EN EL LAVABO Y OBVIAMENTE DEJAVAN MANCHAS DE OXIDO. UNA VEZ, LOS PUTOS GANCHOS DEBIERON ESTAR VARIOS DIAS PORQUE DEJARON ESTA MANCHA EN LA BAÑERA Y LUEGO NO SE PODIA QUITAR, SIN CONTAR LAS VECES QUE EMBOZABAN EL WC POR TENER LA BRILLANTE IDEA DE TIRAR IMAGINATE QUE. Y LO DE LOS PELOS EN EL LAVABO, BAÑERA Y HASTA EN LA COCINA PARA QUE CONTARTE. LO PEOR DE TODO ES, Q ALGUNAS MUJERES, POR EL MERO HECHO DE SER MUJERES, SE CREEN CON EL DERECHO DE PODER HACER LO QUE LES DA LA GANA.
Temos o contestatário para todo o serviço:
SUPONGO QUE IGUAL QUE YO, ESTAIS HARTOS DE PATEAR MADRID PARA ENCONTRAR UNA HABITACION, Y ES QUE TODOS DEBERIAN DE TENER FOTOS, PARA NO PERDER EL TIEMPO EN VERLOS, Y QUE COBREN 300-350E POR UNA HABITACION CUTRE, QUE VAMOS A DORMIR EN UNA MINI CAMA, ESTA GENTE FLIPA.FOTOS FOTOS FOTOS, NO VENDAN LO QUE NO TIENEN.
Y EL CHICO TIENE RAZON, YO VIVO CON UNA CHICA Y UN CHICO Y ELLA ES TODAVIA MAS CERDA QUE EL, TODO LO DEJA POR AHI, TMAPOCO TIRA DE LA CADENA, MI PRIMITA DE 3 AÑOS LO RECOGE TODO.
Temos a miúda racional:
En contestación a los chicos de "sólo chicas" os diré que en parte teneis razón, no es cierto que las chicas sean hoy x hoy más limpias u ordenadas que los chicos. he de decir que yo he convivido con chicos, y si les decias las cosas las hacían sin problema, sin refunfuñar, poner malas caras,... al revés te decían "perdona me despisté" o algo así (y esto cuando se dejaban algo, q normalmente, x respeto, dejaban todo super recogido).
Pero tembién he de decir que encontrar piso en Madrid es una locura. Llevo mes y medio buscando pìso, soy chica, licenciada, trabajo para un organismo público (aunque sin nómina, con proyectos continuos, pero cobro más q si tuviese nómina), estoy haciendo el doctorado, soy limpia, ordenada, tengo buena presencia, además (a parte de xq m gusta) por mi trabajop visto bien(en plan formal), sé cocinar y m encanta, soy española, tengo 25 años y otro montón de cosas que se supone quieren en los pisos de alquiler (compartidos o no)... pues después de todo esto sigo sin encontrar piso y he buscado creeme y he ido a ver muchos pisos y he tenido que oir, sii te llamo mañana y t digo algo,... o llama dentro de un par de días a ver que tal,...
Así que seas chico o chica, cumplas los requisitos que suieren, ... encontrar piso en Madrid (pagues lo que pagues, q esa es otra) es una locura.
Temos a miúda zangada:
ME GUSTA QUE SALGA ESTA ESPECIE DE DEBATE SOBRE LAS CONDICIONES QUETE PONEN PARA ENTRAR A VIVIR EN ESA ESPECIE DE MINI CAJA DE ZAPATOS QUEALGUNA GENTE LLAMA "HABITACIÓN ACOGEDORA", O "CON ENCANTO".
YOSOY UNA CHICA DE VEINTE AÑOS Y, AUNQUE ES CIERTO QUE APARENTEMENTE PARALAS CHICAS ES MAS FÁCIL, NO ESTOY DEL TODO DE ACUERDO. YO LLEVO DOSSEMANAS BUSCANDO UNA HABITACIÓN Y NADA. HE ESTADO EN UN MONTÓN DECASTINGS HUMILLANTES, ME HAN DICHO QUE NO POR SER JOVEN, POR SERESTUDIANTE (QUE SI DE LOS CHICOS SE PIENSA QUE SON MENOS LIMPIOS ORESPONSABLES, LOS ESTUDIANTES POR LO VISTO NOS PASAMOS EL DÍA POR AHÍBORRACHOS O DROGÁNDONOS EN EL PARQUE....), POR SER CHICA E INCLUSO PORSER HETEROSEXUAL.
MADRID, EN MI OPINIÓN, ES AHORA MISMO UNAJUNGLA INMOBILIARIA, LA GENTE PULULA POR LA CALLES EN BUSCA DE TECHO YME GUSTARÍA CONOCER A ALGUIEN QUE HAYA PASADO UNO DE LOS FAMOSOSCASTINGS. ADEMÁS, LA MAYORÍA DE LAS HABITACIONES NI MERECEN LA PENA NICUESTAN LO QUE SE PIDEN. YO, SINCERAMENTE, ME SIENTO UNA GILIPOLLASDANDO VUELTAS POR LA CIUDAD VIENDO HABITACIONES DIMINUTAS POR LAS QUEAHORA YA SÍ ESTOY DISPUESTA A PAGAR VISTO LO VISTO.
Finalmente, para que não só os candidatos a inquilinos estejam representados, o proprietário indignado:
Joder, me canso de enseñar habitaciones. Edades, genero, profesion, negociar precios, pedir menos tiempo, nacionalidad, querer estar 2 en una habitacion individual, etc, etc , este verano me harte de dar paseos a curiosos. Lo unico que decis es : cuando puedo ver la habitacion? que vosotros tambien podeis poner fotos vuestras, y que te digan no es lo que busco cuando he puesto la foto o no lo puedo pagar cuando han visto el precio, pues tb jode.
