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intervalo

Oct. 26th, 2007 | 01:58 am

A partir deste post, o luscofusco entra em regime de licença sem vencimento. Durante os próximos tempos os meus textos estarão no entrepontos.blogspot.com.

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animação

Oct. 21st, 2007 | 05:12 pm

Músicos, pintores, palhaços, caricaturistas, artesãos, pessoas-estátua e mágicos conquistaram um lugar nas ruas da cidade moderna. Esta proliferação de gente, ao ocupar os passeios e mostrar os seus dotes, contribui para o alargamento do público das artes, nomeadamente das performativas.
A cena lisboeta de animação de rua é fraca. Nas praças de outras cidades europeias é frequente ver quartetos de cordas; em Lisboa não vamos além dos acordeões. Não deixa de ser sintomático de um país onde a música clássica está pouco enraizada. Em Nova York vi meia dúzia de gajos misturar de forma incrível breakdance e basquetebol. Visitantes e residentes aplaudiam. Em Portugal, esse filão de futebolistas, nunca vi nenhum exibir-se com uma sessão de toques virtuosos perante os turistas. O protagonista mais original é aquele desafortunado cego que palma a linha verde do metro produzindo beats vertiginosos com a bengala. O homem tem talento e uma capacidade rítmica que lhe permite recriar de forma imaginativa o enfadonho "tenham a bondade de me auxiliar". Os punks passés da rua Garret que pedem dinheiro em troca de cinco notas de flauta espelham a concepção lisboeta de performance artística urbana: recompensá-la trata-se de exercer um acto de caridade e não de reconhecer a sua originalidade ou mérito. Numa perspectiva weberiana, esta seria uma atitude mais católica que protestante.
Madrid tem imensos performers. Uma banda de ciganos funde jazz e música balcânica; um homem de fisionomia russa serve-se de copos para interpretar Bach e Tchaikovsky; um anão que praticamente não tem braços, as mãos unindo-se aos ombros, transforma latas em miniaturas de motas; um sorridente negro munido de um soundsystem portátil de karaoke canta com sotaque jamaicano. E depois há os imitadores de estátuas, todos muito bem caracterizados: um Chaplin a preto e branco, uma árvore realista, uma bruxa de nariz adunco, um anjo dourado.
Trabalham quase todos os dias, alguns têm sítios fixos e outros são itinerantes, conhecem-se uns aos outros. O imitador de Chaplin termina a sua jornada quando um par de ciganos vai começar o raide às esplanadas. Cumprimentam-se, conversam um pouco e o acordeonista solta uma melodia. Chaplin desforra-se da imobilidade e solta uns desenvoltos passos de dança, fazendo girar a bengala prateada.

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calle de toledo, 19 (2)

Oct. 11th, 2007 | 12:37 am

Eu e Jorge, o mexicano, vamos conversando. Sobre o país dele, a Europa, Madrid, esta casa, comida, raparigas. Pergunto-lhe se a oferta amorosa aumenta muito sendo-se músico. Responde que no México, quando tocava numa banda de rock, notava mais isso. Neste momento encontra-se em Frankfurt; acho que está metido numa editora e foi tratar de negócios.
Descobri que o outro Jorge, o filho mais velho de Manuela, toca violino. Assisti a uma exibição sua na cozinha: Bach e algo de sonoridade espanhola que não identifiquei contendo um pizzicato, na minha opinião de leigo, executado de modo muito razoável. O seu irmão, Leonardo, olhava-o embevecido enquanto imitava os seus movimentos com dois palitos.
Manuela gosta de falar comigo. Talvez despejar seja um verbo mais adequado. Há algumas noites, depois de eu chegar, interceptou-me na cozinha e soltou um daqueles suspiros que me obrigou a perguntar o óbvio, se estava cansada. Desata numa série de considerações sobre como a sua vida é uma corrida constante e de como não tem tempo para o que quer que seja e de como os filhos lhe consomem os dias. Tento aligeirar a conversa, pergunto-lhe se a mãe não a costuma ajudar, enfim, ficar com os miúdos quando ela sai. Responde que não, nada disso, que a mãe lhe mói a cabeça, que prefere que a ela esteja longe e não a esteja sempre a vigiar. E conclui, es un poco cabrona, mi madre, ¿sabes?

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napoleão e o mercado comum

Oct. 6th, 2007 | 05:10 pm

Marion comenta que há muito espanhóis que parecem não apreciar os franceses. Pergunto-lhe se viu no Prado os quadros de Goya alusivos à invasão de 1808. Diz-me que não é por isso, que é pelos morangos. Pelos morangos? Sim, responde, em 1986, quando os países ibéricos entraram na CEE, fizeram-se bloqueios nas estradas francesas aos camiões que transportavam morangos espanhóis.

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facultad de cc. políticas y sociología

Oct. 4th, 2007 | 10:51 pm

Ontem foi o primeiro dia de aulas. O edifício da faculdade é horrível. Nao ao nível da torre-que-afinal-é-um-livro-aberto da FCSH, o patamar aqui é outro. É um daqueles prédios estilo caixote revestido a tijolos vermelhos. Podia ser um armazém em Manchester.
O interior da Facultad de Ciencias Políticas y Sogiología é uma miscelânea de inscriçoes contestatárias, flyers anarquistas, tarjas de manifestaçoes de protesto: contra a dificuldade em conseguir casa, contra a precaridade laboral, contra a desiguladade de género, contra a presença dos russos na Chechénia . A esmagadora parte dos alunos parece ser de esquerda. À entrada da cafetaria há uma espécie de bar paralelo explorado por pessoal que me parece okupa. Muitos alunos andam de calças de fato de treino de poliéster. Uns quantos punks, alguns rastas. Vêem-se referências institucionais à polémica lei 28/2005, a tal que restringe substancialmente a possibilidade de fumar dentro de espaços fechados, particularmente no interior de edifícios públicos. Nas outras faculdades da Complutense que tive a oportunidade de visitar cumpre-se a lei. Porém, na "minha" ninguém faz caso e quase toda a gente fuma: cigarros, charutos, cigarrilhas, charros. Em espanhol "sala de aula" traduz-se simplesmente por "aula". Nao há uma única em que nao se tenha prefixado, com um marcador ou um corrector, um "J": uma série de jaulas, portanto. A verdade é que a faculdade em si mesma é um sítio fechado, algo claustrofóbico. Nao há qualquer extensao para o ar livre, um pátio, uma esplanada.
Quando nos encontramos, Marion, francesa bonita de sorriso fácil, pronuncia como pode o meu nome (oscila entre Juan, Xuao, Jao) e fala-me entusiasmada da sua aula de Sociologia do Desvio. Numa mistura de espanhol com francês explica-me qual é sítio habitualmente escolhido pelos suicidas madrilenos e diz que a faculdade já foi uma prisao. As lúgubres vigas de betao parecem anuir. Almoço com Marion e outras francesas. Ela pede o último "bocadillo" disponível: calha-se uma sandes de entremeada que ela e as suas compatriotas fitam enjoadas. Tento explicar que entre comer aquilo ou bacon nao há grandes diferenças, mas de nada serve.
Quanto ao académico em sentido estrito, tenho alguns dias para escolher que cadeiras frequentar, pelo que tenho andado em prospecçao.

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calle de toledo, 19

Oct. 1st, 2007 | 09:47 pm

Manuela faz teatro e dança flamenco. As estantes dela sao uma mistura curiosa de exemplares da revista "Cadernos Taurinos", ediçoes de clássicos de teatro espanhol e inglês e um ou outro livro de autoajuda. Numa conversa breve, tratou o teatro mais como instrumento ou terapia para a vida cá fora do que como arte em si mesma. Usa maquilhagem a rodos, diz que gosta de beber e de ir a festas. A mae dela vive na porta ao lado, uma mulher de sessenta anos bastante frescos que passa a vida lá em casa. Os miúdos, Jorge e Leonardo, o primeiro treze, o segundo quatro, sao loirissimos. Jorge começa a ser homenzinho. Fala-me com ponderaçao, deixa muito facilmente o ritmo frenético das brincadeiras com o irmao para assumir aquele que lhe parece mais adequado à convivência comigo. Leonardo anda sempre com um arco e umas flechas, disparando-as pela casa, sob o olhar relaxado da sua mae. Ontem, ao abrir a porta do meu quarto, que dá para a cozinha, quase sou trespassado por uma seta sibilante. Respiro fundo e olho para o Leonardo que me diz que é arqueiro. Mais aliviado, assumo ingenuamente que está a ter aulas de tiro ao alvo. Pergunto-lhe onde é que está a aprender e ele responde que viu num filme como se faz. Ando sempre alerta fora dos meus domínios. Esta família feliz vai a musicais e pelo menos um dos seus membros costuma estar a cantarolar ou a assobiar pela casa. Como se isto nao bastasse há ainda outro inquilino: Jorge (outro Jorge), um rapaz pouco mais velho que eu, mexicano, que é músico, canta e toca guitarra. Durante o dia fica trancado no quarto a fazer escalas com a sua voz, que é de facto harmoniosa. Costuma tocar por aí e, tal como Pajaro, participa em gravaçoes alheias para ir ganhando a vida. Dentro de dias tem uma audiçao para actuar num género de espectáculo espanhol que ele me definiu como sendo uma ópera mais popular.
Sinto-me dentro de um argumento do Almodovar.

(sem tiles)

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locutorios

Sep. 30th, 2007 | 07:35 pm

Um locutorio consiste num conjunto de cabines individuais donde se pode telefonar para o estrangeiro a preços baixos. Além disso sao muitas vezes centros de acesso à internet, efectuam transferências de dinheiro, desbloqueiam telemóveis, funcionam como central de anúncios imobiliários e laborais. Os clientes, bem como os proprietários, sao quase sempre imigrantes. A proveniencia dos utilizadores é relativamente homogénea: há locutorios para hispano-americanos, magrebinos, chineses, subsaharianos, indianos. É a partir de um deste último tipo que escrevo neste momento. Todos, à excepçao de mim e de um outro à minha esquerda, parecem ser oriundos do imenso país triangular. A imagem do desktop é a de uma belíssima indiana sorrindo com o Taj Mahal ao fundo.

(sem tiles)

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strawberry jam

Sep. 30th, 2007 | 01:31 am

Um homem sozinho num quarto de hotel que não é turista, viajante, imigrante. Sinto um certo apelo por este tipo de personagem, a daquele que se limita a esperar algo: uma mulher difícil, um determinado acontecimento, a oportunidade de um crime. Aparecem amiúde nos livros e nos filmes, às vezes com bons resultados, outras nem por isso. Sempre tive curiosidade em saber em como me sentiria sendo um deles; como seria estar só, sem ter de correr contra o tempo que se esfuma até à hora do avião de regresso. Bem vistas as coisas, até agora nunca tinha estado num quarto de hotel sem ninguém com quem o partilhar - ainda que classificar como hotel este singelo Hostal Perez não seja talvez o mais exacto.
Os meus primeiros dias em Madrid foram intensos, desgastantes. Encontrar uma casa é difícil por estes lados, mais do que imaginava. A procura é muita e a oferta não é tanta quanto isso. Daí que os preços sejam elevados e não haja uma correspondência proporcional entre o que é disponibilizado e o que é pedido em troca. Fiz dezenas de telefonemas, mandei alguns e-mails, vi umas quantas casas. À conta disso iniciei esse processo interminável e sempre gradual que é o de interiorizar as distâncias, assimilar o espaço, entrar na dinâmica de uma cidade. Apesar de ter já estado em Madrid no ano passado e de me recordar da sua geografia, o meu olhar é agora diferente, mais dirigido aos aspectos práticos da vivência quotidiana. Depois de algumas frustrações recebo uma resposta positiva: Manuela, uma trintona que parece ser fixe com dois filhos, Leonardo e Jorge, quatro e treze anos, dá-me o seu aval: me parece muy bien que vengas. Não tinha imaginado uns companheiros de casa assim e o preço é acima do orçamento inicial. No entanto, o tamanho do quarto, a localização da casa, a sombria perspectiva de ir gastando dinheiro indefinidamente em noites no hostal e a boa impressão que Manuela e os pequenos me causam fazem-me avançar. Mudo-me amanhã para a minha nova casa, Calle de Toledo, 19, 4. izq., 28005 Madrid. Para quem conhece a cidade, é a rua que sai da Plaza Mayor para sul, na direcção da Latina. Para os outros, recorrendo a um paralelismo imperfeito com Lisboa, seria mais ou menos como estar na Rua Aúrea (ou do Ouro). Invejável, portanto.
Que faz um solitário durante a noite, quando não tem de procurar casas? No meu caso, cansado de caminhar, janto em condições, bebo umas cervejas (gosto da Mahou) ou uns copos de vinho, vejo futebol e oiço música. Ontem assisti a um concerto de um sexteto de jazz num bar porreiro chamado Populart - entradas gratuitas e bebidas caras. A aborratar por ser sexta e com gente de proveniências distintas: espanhóis residentes, italianos bonitos, um par de nórdicos de expressão sorumbática mesmo nos picos da música, americanos enormes entendidos em jazz, that's from George Benson, he'd be proud. Gosto muito do concerto e do sítio, mas não tenho carteira que aguente assim tantas idas lá. Além disso fica nas Huertas, relativamente longe da minha localização actual, em Argüelles. O sítio que eu adopto como base é café, cervejaria e restaurante ao mesmo tempo: o nome é Dublín, embora não seja irlandês. É de facto bastante espanhol, servindo-se pinchos de empanada galega e tortilha, montados de lomo e umas tapas porreiras (destaque para as anchovas e para a salada russa). Começo a dar-me bem com os empregados: Juan, espanhol carrancudo, Jorge, um rapaz simpático de aspecto índio, possivelmente peruano, e uma mulata (Conchita, acho) que além de muito bonita é bastante reivindicativa e que me parece vinda do Caribe. É no Dublín que vejo os jogos de futebol: Athletic Bilbao - Atlético Madrid, Barça - Zaragoza, Real Madrid - Betis, Barcelona - Levante. Há alguns habitués da bola e ao longo das noites vou conversando com um deles, primeiro sobre o futebol, depois sobre o resto. Comentamos a importância de Sneijder no actual Real Madrid, a segunda época dos galácticos (eixo Makélélé-Zidane), a rotação de bola do Barça, a capacidade de antecipação de Messi, a recente crise de Deco aparentemente contariada nos últimos jogos, o dream team do início dos anos 90, Stoichkov, Romário, o campeonato que o Levante reclama ter ganho no tempo da Guerra Civil. Diz-me que por mais jogadores que apareçam nenhum será como Maradona. Que se meteu num comboio com uns amigos quando tinha vinte anos e que fez mil quilómetros para o ver jogar; nessa altura Maradona era ainda adolescente. Pergunto-lhe se é argentino, então. Confirma, chama-se Mário, mas todos lhe chamam Pajaro. Músico sem banda fixa, costuma tocar em estúdio e fazer digressões com gente conhecida, diz. Saiu da Argentina há vinte e seis anos, andou pela Europa central e do norte, pelo Kuwait antes da guerra. Toca guitarra e gosta principalmente de jazz e de música brasileira. Falo-lhe no concerto no Populart e ele diz-me que costuma tocar por lá. Convida-me para a sua próxima actuação num sítio chamado El Junco e faz-me um mapa no meu caderno. É na segunda-feira e também não se paga.

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yo la tengo

Sep. 28th, 2007 | 12:53 am

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depoimentos do mundo imobiliário madrileno

Sep. 27th, 2007 | 08:16 pm

Para que vejam o tipo de meio em que me tenho movido deixo-vos alguns testemunhos encontrados num site de anúncios.

Temos o que se queixa dos anúncios que pedem "sólo chicas":
TIENES RAZON, YO VIVIA CON VARIAS PERSONAS EN UN PISO COMPARTIDO, DE LAS CUALES 2 ERAN TIAS.  INCREIBLE : SE DEJABAN LOS GANCHOS DEL PELO EN EL LAVABO Y OBVIAMENTE DEJAVAN MANCHAS DE OXIDO.  UNA VEZ, LOS PUTOS GANCHOS DEBIERON ESTAR VARIOS DIAS PORQUE DEJARON ESTA MANCHA EN LA BAÑERA Y LUEGO NO SE PODIA QUITAR, SIN CONTAR LAS VECES QUE EMBOZABAN EL WC POR TENER LA BRILLANTE IDEA DE TIRAR IMAGINATE QUE.  Y LO DE LOS PELOS EN EL LAVABO, BAÑERA Y HASTA EN LA COCINA PARA QUE CONTARTE.  LO PEOR DE TODO ES, Q ALGUNAS MUJERES, POR EL MERO HECHO DE SER MUJERES, SE CREEN CON EL DERECHO DE PODER HACER LO QUE LES DA LA GANA. 

Temos o contestatário para todo o serviço:
SUPONGO QUE IGUAL QUE YO, ESTAIS HARTOS DE PATEAR MADRID PARA ENCONTRAR UNA HABITACION, Y ES QUE TODOS DEBERIAN DE TENER FOTOS, PARA NO PERDER EL TIEMPO EN VERLOS, Y QUE COBREN 300-350E POR UNA HABITACION CUTRE, QUE VAMOS A DORMIR EN UNA MINI CAMA, ESTA GENTE FLIPA.FOTOS FOTOS FOTOS, NO VENDAN LO QUE NO TIENEN.
Y EL CHICO TIENE RAZON, YO VIVO CON UNA CHICA Y UN CHICO Y ELLA ES TODAVIA MAS CERDA QUE EL, TODO LO DEJA POR AHI, TMAPOCO TIRA DE LA CADENA, MI PRIMITA DE 3 AÑOS LO RECOGE TODO.

Temos a miúda racional:
En contestación a los chicos de "sólo chicas" os diré que en parte teneis razón, no es cierto que las chicas sean hoy x hoy más limpias u ordenadas que los chicos. he de decir que yo he convivido con chicos, y si les decias las cosas las hacían sin problema, sin refunfuñar, poner malas caras,... al revés te decían "perdona me despisté" o algo así (y esto cuando se dejaban algo, q normalmente, x respeto, dejaban todo super recogido).
Pero tembién he de decir que encontrar piso en Madrid es una locura. Llevo mes y medio buscando pìso, soy chica, licenciada, trabajo para un organismo público (aunque sin nómina, con proyectos continuos, pero cobro más q si tuviese nómina), estoy haciendo el doctorado, soy limpia, ordenada, tengo buena presencia, además (a parte de xq m gusta) por mi trabajop visto bien(en plan formal), sé cocinar y m encanta, soy española, tengo 25 años y otro montón de cosas que se supone quieren en los pisos de alquiler (compartidos o no)... pues después de todo esto sigo sin encontrar piso y he buscado creeme y he ido a ver muchos pisos y he tenido que oir, sii te llamo mañana y t digo algo,... o llama dentro de un par de días a ver que tal,...
Así que seas chico o chica, cumplas los requisitos que suieren, ... encontrar piso en Madrid (pagues lo que pagues, q esa es otra) es una locura.

Temos a miúda zangada:
ME GUSTA QUE SALGA ESTA ESPECIE DE DEBATE SOBRE LAS CONDICIONES QUETE PONEN PARA ENTRAR A VIVIR EN ESA ESPECIE DE MINI CAJA DE ZAPATOS QUEALGUNA GENTE LLAMA "HABITACIÓN ACOGEDORA", O "CON ENCANTO".
YOSOY UNA CHICA DE VEINTE AÑOS Y, AUNQUE ES CIERTO QUE APARENTEMENTE PARALAS CHICAS ES MAS FÁCIL, NO ESTOY DEL TODO DE ACUERDO. YO LLEVO DOSSEMANAS BUSCANDO UNA HABITACIÓN Y NADA. HE ESTADO EN UN MONTÓN DECASTINGS HUMILLANTES, ME HAN DICHO QUE NO POR SER JOVEN, POR SERESTUDIANTE (QUE SI DE LOS CHICOS SE PIENSA QUE SON MENOS LIMPIOS ORESPONSABLES, LOS ESTUDIANTES POR LO VISTO NOS PASAMOS EL DÍA POR AHÍBORRACHOS O DROGÁNDONOS EN EL PARQUE....), POR SER CHICA E INCLUSO PORSER HETEROSEXUAL.
MADRID, EN MI OPINIÓN, ES AHORA MISMO UNAJUNGLA INMOBILIARIA, LA GENTE PULULA POR LA CALLES EN BUSCA DE TECHO YME GUSTARÍA CONOCER A ALGUIEN QUE HAYA PASADO UNO DE LOS FAMOSOSCASTINGS. ADEMÁS, LA MAYORÍA DE LAS HABITACIONES NI MERECEN LA PENA NICUESTAN LO QUE SE PIDEN. YO, SINCERAMENTE, ME SIENTO UNA GILIPOLLASDANDO VUELTAS POR LA CIUDAD VIENDO HABITACIONES DIMINUTAS POR LAS QUEAHORA YA SÍ ESTOY DISPUESTA A PAGAR VISTO LO VISTO.

Finalmente, para que não só os candidatos a inquilinos estejam representados, o proprietário indignado:
Joder, me canso de enseñar habitaciones. Edades, genero, profesion, negociar precios, pedir menos tiempo, nacionalidad, querer estar 2 en una habitacion individual, etc, etc , este verano me harte de dar paseos a curiosos. Lo unico que decis es : cuando puedo ver la habitacion? que vosotros tambien podeis poner fotos vuestras, y que te digan no es lo que busco cuando he puesto la foto o no lo puedo pagar cuando han visto el precio, pues tb jode.

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do mercado de arrendamento madrileno

Sep. 27th, 2007 | 10:14 am

Preferem-se trabalhadores a estudantes. Preferem-se mulheres a homens. Preferem-se espanhóis a estrangeiros. Preferem-se estrangeiros que fiquem até Junho a estrangeiros que fiquem até Fevereiro. Estou na base da cadeia alimentar.

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promessa

Sep. 27th, 2007 | 09:52 am

Escrever qualquer coisa cuidada e com mais de um parágrafo assim que estiver instalado.

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everything happens today

Sep. 27th, 2007 | 12:20 am

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quarenta e oito horas

Sep. 26th, 2007 | 12:44 pm

Uma épica demanda por um tecto que se pressente longa e fatigante.

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chegada

Sep. 26th, 2007 | 12:24 am

Há cidades que ficam relativizadas por um rio marcante, uma montanha omnipresente, o mar envolvente. Madrid não. A rodeá-la apenas um castanho de aspecto seco.

(nota prática: por um misto de estupidez e azar fiquei com o meu número de telemóvel bloqueado por tempo indefinido)

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anúncio

Sep. 22nd, 2007 | 12:17 am

Segunda-feira apanho um avião para Madrid. Vou lá ficar uns meses.

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no porto

Sep. 20th, 2007 | 02:41 am
music: cat power

No Porto come-se melhor que em Lisboa por menos dinheiro. Uma travessa preenchida por apetitosas costeletas de javali, batatas e vegetais, acompanhada por um copo de um vinho rústico bastante razoável por apenas cinco euros é uma pérola para alguém habituado à exorbitância especulativa de uma Lisboa deslumbrada com o seu estatuto de capital europeia. Delicio-me com os saborosos nacos de carne caprichosamente colados aos ossos e saio de barriga e alma cheias para o rebuliço da baixa portuense.
Andar sozinho permite-me gastar o tempo de formas tão idiossincráticas quanto eventualmente estúpidas. Com uma viagem de autocarro por gastar e vontade de estar sentado, apanhei uma carreira qualquer, acho que a 207, com destino ao Hospital de São João. Saí a meio porque umas raparigas alemãs também o fizeram - pode parecer um pretexto pouco sustentado, mas não pensei muito nisso na altura. Tentei sem sucesso localizar-me no mapa da paragem (inexplicavelmente não há um círculo que assinale "você está aqui") e perguntei depois a um homem que aguardava se me sabia dizer onde nos encontrávamos. Desconcertado, alterna o olhar entre mim  e o mapa e diz-me: eu sei que estamos em Vale Formoso, mas não consigo perceber onde é que fica aí. Sei que tenho de me dirigir para sul, para a zona dos Aliados. Meto-me na rua Serpa Pinto, há sempre uma rua Serpa Pinto, penso. Tenho sede e quarenta e três cêntimos comigo. Enfio-me num Pingo Doce e compro uma garrafa de água fresca por oito. Na fila para pagar pergunto como ir até aos Aliados. Sempre a descer, respondem-me, faz-se bem. Não deixo de constatar que a maior parte dos lisboetas tem maior aversão a exercitar a passada que as gentes do Porto. Em Lisboa usa-se um autocarro, um eléctrico, um elevador, por tudo e por nada. No Porto, parece-me, anda-se mais. Gosto disso. Também gosto de sítios que vendam livros. E no largo Alberto Pimentel encontro um com bom aspecto. Submerjo nas centenas de lombadas em busca de algo que seja apelativo. Subitamente, o som de um telefone. Com voz de trovão, o alfarrabista, e isto merece um parágrafo, isto merece um itálico, isto merece todo o destaque:
Pró caralho com a modernidade, é telefones, telemóveis, campainhas, internet, já não posso com isto, puta da modernidade que nos tira o sossego, estavas, linda Inês, posta em sossego... Nos saudosos campos do Mondego...
Atende. Faz uma pausa. Diz que a voz lhe soa familiar, uma toada transmontana, que de facto não é bom sinal esquecer-se da voz dos clientes, mas que já se sabe como é que é, a idade não perdoa...
Engenheiro, exclama, como tem passado? Gosto em ouvi-lo.
Do outro lado o engenheiro tenta negociar algo.
Com certeza, engenheiro, eu vou aí, à noite para não lhe dar chatice nem eu ter de fechar aqui a barraca, mas vou aí ter, claro. Como quem vai para Esmoriz, sim, autoestrada de Espinho, sim, naquela bia voa (sic - garanto por minha honra que foi assim pronunciado)nova, sim, de acordo, saio na segunda, certo, depois sigo em frente. E o número? Muito bem.
Desliga. Comenta com a mulher, que está junto dele,
É o engenheiro, quer que lhe avalie a biblioteca, isto anda tudo teso, ó caralho...
Gosto do Porto.

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tom waits

Sep. 18th, 2007 | 02:00 am

Pitchfork: Do you have a favorite sound?

Tom Waits: Bacon. In a frying pan. If you record the sound of bacon in a frying pan and play it back it sounds like the pops and cracks on an old 33 1/3 recording. Almost exactly like that. You could substitute it for that sound.

tirado daqui.

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festa do avante! 2007

Sep. 10th, 2007 | 07:20 pm

Deliciosas migas de espargos com carne de alguidar de Évora a abrir. Umas colheradas de uma consistente sopa de peixe de Setúbal. Uma predilecção, o choripán do Uruguai, uma sandes de chouriço assado que leva chimichurri, um molho apaladado. Butifarra (espécie de salsicha fresca na brasa), fuet (híbrido de chouriço e salame estreito), tortilha de batata e pão com tomate da Catalunha. De Cabo Verde, uma cachupa na qual se destacava a qualidade da morcela. Um género de broas de mel polvilhadas com açúcar envolvendo tâmaras da Palestina. Vindos de Moçambique, uns surpreendentes pastéis de vegetais com malagueta picada de cujo nome me esqueci e também um suave bolo de côco. Agradável poncha madeirense. Um tinto italiano muito sofrível e um outro catalão já razoável, apesar de servido fresco. Um aveludado cabernet sauvignon chileno comprado numa conhecida cadeia de distribuição alemã.

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music for airports (o final)

Sep. 3rd, 2007 | 12:47 am

Primeira parte aqui. Segunda parte aqui. Terceira parte aqui. Quarta parte aqui. Interlúdio aqui.

Liszt volta a acordar-me e no ecrã iluminado lê-se uma única letra, a última que eu esperaria: V. Atendo com um olá ensonado. Ela responde com aquela entoação gozona, isso faz mal, dormires com o telemóvel ligado, já to disse tantas vezes. É que estive a ler até tarde e esqueci-me dele, justifico-me. O que é que estás a ler? Acabei-o ontem, chama-se O Deserto dos Tártaros é de um italiano, Dino Buzzati, o livro é bom, a dar para o pesado, mas bom. Nunca ouvi falar dele, depois emprestas-me. Empresto-to, claro - sarcasmo defensivo procurando não denunciar a surpresa. Ela ri-se, és tão descrente, tu, mas sabes, estive a pensar, devíamos casar-nos. Casar-nos? Sim, eu tenho consciência de que não é fácil lidar bem comigo, aturar-me, não é que sejas o homem da minha vida, no singular, deve haver no mundo uns vinte com quem eu me poderia casar, mas tenho-te a ti e sei que és um deles, um dos homens da minha vida, portanto para quê procurar mais?, e tu amas-me, não é?
Com V. tinha aprendido que há pessoas sobre as quais não podemos criar certezas, mas isto era de mais. Gaguejo meias palavras atabalhoadas, ela continua a rir-se, não dizes nada, tolinho? E então é como nos filmes: a campainha toca, o som é tão ruidoso que se ouve em Paris, ela lança um previsível, porque também V. o é de vez em quando,
save by the bell. Podes crer, admito, e logo me arrependo, ligo-te daqui a um bocado, pode ser? Põe-se séria, vais desligar por causa da campainha?, deve ser publicidade. O espalhafatoso ruído soa de novo no apartamento, desta vez mais prolongado. Ouve, já te ligo, não sejas chata. 
Não tenho intercomunicador, limito-me a abrir sem espreitar pela janela. Assomam nas escadas, algo estafados pelos quatro andares, cinco homens de aspecto seco. Identificam-se como sendo da Judiciária, Direcção Central de Investigação do Tráfico de Estupefacientes. Perguntam-me pela Samsonite. Levo-os até ela, sem palavras e com o coração a disparar. À excepção dos livros e do Boss todo o conteúdo permanece no seu interior. Um dos inspectores abre o saco de plástico que eu julgava conter roupa suja. E de facto lá dentro estão meias de ténis e boxers escuros, mas não com o odor que eu previa. De facto estão limpos. Uma das meias está atada, o homem desfaz o nó: lá dentro está uma quantidade razoável de pó branco.

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